Vinhos Almasim e os Vinhos Cársicos

As Terras de Sicó, na Beira Atlântico, formam um dos maciços cársicos mais expressivos de Portugal. É neste território marcado por rocha calcária, cavernas naturais e drenagem subterrânea que surge o projeto vinícola Almasim, conduzido por Álvaro Marques Simões, no povoado de Podentes, perto de Penela. A particularidade do solo define, de forma direta, a identidade dos seus vinhos.

A visita ao produtor teve como objetivo repor garrafas do Às de Sicó Tinto, mas rapidamente evoluiu para uma conversa aprofundada sobre viticultura em ambiente cársico. Durante a visita, provou-se também um novo tinto de teor alcoólico reduzido — ainda em fase pré-lançamento — pensado para consumo fresco nos meses quentes.

O que distingue um vinho cársico?


Enquanto grande parte das regiões vitivinícolas portuguesas assenta em solos argilo-calcários, em Sicó a argila praticamente desaparece, substituída por grés calcário rico em feldspato e mica. Estes minerais estabilizam a temperatura do solo e promovem uma maturação mais homogénea, favorecendo a acumulação equilibrada de açúcares e frutose nas uvas.

A natureza cársica cria ainda:

  • elevada drenagem, obrigando a videira a aprofundar raízes;
  • oxigenação natural do perfil do solo graças a rios subterrâneos;
  • maior mineralidade e tensão nos vinhos;
  • aromas mais definidos quando a colheita é antecipada.

O resultado são vinhos com frescura marcada, acidez firme e estrutura fina — características consistentes nos vinhos Almasim.

Castas e produção

O Às de Sicó Tinto é produzido com Baga, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Fernão Pires.
A Baga provém de vinhas velhas; as restantes castas são de plantações mais recentes. A produção total ronda as 10 mil garrafas/ano, com predominância de tintos (80%). Nos brancos, o produtor trabalha exclusivamente com Fernão Pires, que revela excelente adaptação ao solo calcário de Sicó.

Frescor natural e novos estilos

Para criar vinhos mais leves e florais, a estratégia é clara: vindima antecipada. É desta abordagem que nasce o novo tinto de 11,5% vol., pensado como um “tinto de verão” — um estilo pouco comum em Portugal, mas altamente valorizado em regiões de clima quente.

A importância do contexto cársico no mundo

Os vinhos produzidos em solos cársicos distinguem-se pela frescura, acidez elevada e mineralidade intensa. Outras regiões relevantes incluem:

  • Itália (Carso) – referência mundial dos vinhos cársicos, tintos Terrano e brancos de Malvasia Istriana.
  • Eslovénia (Kras) – perfis minerais muito marcados, continuidade geológica do Carso italiano.
  • França (Jura e algumas zonas calcárias de Champagne) – elevada acidez e caráter mineral.
  • Croácia (Istria e Dalmácia) – solos calcários que favorecem vinhos estruturados e brancos aromáticos.
  • Espanha e Áustria – presença parcial de formações calcárias associadas a vinhos de grande tensão.

Os vinhos Almasim mostram como o terroir cársico das Terras de Sicó pode originar vinhos com identidade própria, frescos, minerais e tecnicamente equilibrados.

Produzidos numa escala reduzida, mas com conhecimento profundo do território, representam um património enológico ainda pouco explorado em Portugal.

À medida que produtores como Álvaro Marques Simões reforçam boas práticas, comunicação e presença no mercado, os vinhos cársicos portugueses têm potencial para ganhar o mesmo reconhecimento internacional que já alcançaram noutras regiões calcárias do mundo.